sexta-feira, 12 de março de 2010

vidraças sujas.



Um casal, recém casado, mudou-se para um bairro muito tranquilo.

Na primeira manhã que passavam na casa, enquanto tomavam café, a mulher reparou, através da janela, em uma vizinha que pendurava lençóis no varal e comentou com o marido:

- Que lençóis sujos ela está pendurando no varal ! Está precisando de um sabão novo. Seu eu tivesse intimidade, perguntaria se ela quer que eu a ensine a lavar as roupas !

O marido observou calado.

Alguns dias depois, novamente, durante o café da manhã, a vizinha pendurava lençóis no varal e a mulher tornou a comentar com o marido:

- Nossa vizinha continua pendurando os lençóis sujos ! Se eu tivesse intimidade, perguntaria se ela quer que eu a ensine a lavar as roupas !

E assim, a cada dois ou três dias, a mulher repetia seu discurso, enquanto a vizinha pendurava suas roupas no varal.

Passado um tempo, a mulher se surpreendeu ao ver os lençóis muito brancos sendo estendidos.

- Veja, ela aprendeu a lavar as roupas, será que outra vizinha ensinou ? Porque eu não fiz nada !

E o marido calmamente respondeu:

- Não, hoje eu levantei mais cedo e lavei os vidros da nossa janela.


A tendência do ser humano em realçar os erros e defeitos dos outros o impede de enxergar as suas próprias vidraças sujas.

Lave suas vidraças, abra suas janelas.
heroísmo na relação é cuidar do óbvio.
carpinejar
eu adoro as dúvidas.
as dúvidas regeneram as verdades.
uma verdade parada não é paz, é abandono.

carpinejar

cera quente, por carpinejar.

ele escreve.
eu penso, repenso.
discordo. detesto.
adoro. quero mais.

mas sempre, sempre
o leio.

tava aqui


Casal feliz não tem amigos. Não tem testemunhas. Eu não caracterizaria de felicidade, é desinformação. Ninguém sabe da intimidade deles para definir o quanto estão ou não contentes.

Meu amor é brigado. Passa a imagem de tormenta, de crise, de luta, mas corresponde a uma convivência normal, de altos e baixos. Anormal é uma relação sem nenhuma anormalidade.

Não guardo pena de mim ou de minha namorada, mas dos amigos que seguram velas. Há sempre mais cera do que fogo.

Vivo pagando mico. Eles têm que suportar a bi-polaridade do amor. Uma coisa é segurar a vela no início do namoro, outra é segurar o próprio bolo com a teimosinha acendendo e apagando a cada sopro ou vento da janela.

Num dia cinzento, ligo para chorar que me separei, suspiro o uísque, fumo os soluços. Sou um suicida perigoso. Exijo cumplicidade, imunidade poética, obcecado em comprovar que não havia jeito de continuar. Falo mal à beça da namorada, destrato e subestimo o passado. Eles concordam.

No sol seguinte, fico condicionado a telefonar na maior desfaçatez e comunicar a reconciliação. É extremamente constrangedor. Contornei o que julgava irreparável, reabri o que anunciava como definitivo. Sou o salvador do suicida. Mudo o tom e a esperança. Falo bem à beça da namorada, elogio e exalto o futuro, reconheço o tanto que ela me apóia, descortino argumentos favoráveis e destaco a resistência da união que supera a mortalidade infantil das ameaças. Eles concordam.

Depois de publicar o retorno no Diário Oficial, eu me penitencio. Já estava na hora de entender: o par que apronta escândalo na despedida permanecerá junto. Perigosa é a separação seca, abrupta, cansada de explicações.

Às vezes, acho que não tenho que ceder, que amigo que é amigo providenciará um desconto e ouvirá a história pela enésima vez com o interesse da novidade. Na maior parte do tempo, acho que cometi bobagem e meus confidentes estão de saco cheio. Eu me afogo no raso. Talvez necessite mudar, vejo que engrandeço a vida a ponto de recusar uma mísera contrariedade e me vingo com o exagero.

A angústia é uma falsa urgência. Todo casal separado deveria não fazer absolutamente nada dentro do prazo de cinco dias. Não decidir movimentação alguma, permitir o corpo esfriar o desaforo, talvez entrar numa clínica ou num spa para desintoxicação vocabular.

O que acontece é cômico. Não transcorreu uma manhã do tumulto, vem uma sanha do remorso, uma conspiração maquiavélica a destruir os antecedentes. O amor se torna um crime impronunciável e mergulhamos numa mobilização desenfreada para limpar a memória, o computador e apagar as pistas. As fotos do orkut são excluídas, as senhas trocadas, as telas de proteção e os porta-retratos desaparecem, os livros afrouxam a costura sem a página da dedicatória, as cartas recebem a visita do picotador de papel. Até o chaveirinho mimoso, comprado no Brique da Redenção, é removido da argola das chaves.

Quando os dois voltam, sacrificou-se metade da memória. É aquela flutuação de fantasma na primeira semana. Uma impressão de que somos facilmente substituíveis e descartáveis.

Não se conservou nem o número no celular e experimenta-se a perversidade de perguntar de novo. O que foi construído durante meses entra numa caixinha para a caridade.

Qualquer morto depende de 24 horas antes de ser enterrado. O mesmo é indicado aos relacionamentos. Confie na ressurreição, não apresse a cova, poderá ser apenas mais um buraco no jardim.

cheia de coisas boas.

roda viva no ocidente

momentos e músicas.

um amigo me disse.

pra que terapia?
se eu posso demolir a parede
e fazer um apartamento onde todos convivam...

depois eu conto melhor essa história.

aprendendo com etimologia.

desânimo

des
anima

sem alma.

desanimar-se é quase ficar sem alma
então
tá dito
não desanime!
de jeito nenhum.

apenas.

"eu queria perder um pouco de tempo contigo"

quinta-feira, 11 de março de 2010

eu adoro clichês.
ganhei a noite antes mesmo de sair de casa.

comigo pela madrugada de ontem.


"nestas impressões sem nexo,
nem desejo de nexo,
narro indiferentemente a minha autobiografia sem factos,
a minha história sem vida.

são as minhas confissões,
e, se nelas nada digo,
é que nada tenho que dizer."

Fernando Pessoa
O Livro do Desassossego
estar sozinha
ouvir o mundo em mim

eu, como uma flor.


eu, como uma flor
talvez solitária num pequeno vaso
talvez imersa num enorme jardim

eu, como uma flor
não interessa tanto onde nem como
mas como todo o amor em mim

simples assim.

os dois lados da mesma rua.


hoje eu descobri que o outro lado da rua é mais bonito
tem mais árvores, cores, é mais silencioso

eu acabei vindo pelo outro lado da rua
não sei dizer o motivo

e isso acontece bastante
a gente adora um lado da rua
anda sempre naquele lado
atravessa sempre no mesmo local...

existem tantas ruas, tantos lados
pra gente conhecer

por que andar sempre na mesma rua?
sempre pelo mesmo lado?