terça-feira, 26 de abril de 2011
se você me pede para ir embora, eu fico.
no primeiro dia de frio, a despedida mais doce.
pode ser reconfortante ir embora.
é só esquecer os motivos que nos fariam ficar.
segunda-feira, 25 de abril de 2011
ministério da sobrevivência adverte.
mentira, falsidade, fingimento, ilusão.
falta de caráter, besteiras, bobagens.
incoerência, egoísmo, traição.
em qualquer um dos casos acima,
tenha a certeza de que fechou
todas as portas e janelas
que tirou a água das flores
assassinou todas as possibilidades
de reprodução desses pensamentos
e saiu para ir embora
e voltar só na outra estação.
domingo, 24 de abril de 2011
encontrei.
se a gente ficar pensando,
pensando,pensando...
vai ter muitos passados
e nenhum futuro.
(o segredo dos seus olhos)
chega de saudade.
viva a bossa nova, que está sempre por perto quando a gente precisa de companhia pra chorar.
domingo estranho.
ouvindo chocolate e comendo música.
"you look so pretty sleeping next to me."
"you look so pretty sleeping next to me."
andei pensando.
e acho que descobri porque às vezes parece que Deus não existe. na verdade, ele está ocupado com esse pessoal todo solicitando milagres durante os jogos de futebol.
sábado, 23 de abril de 2011
O vestibular da fossa, por F. Carpinejar
(frações de cores comuns)
é reconfortante quando um autor escreve o que a gente precisa.
poupa trabalho.
***
Superar uma dor de amor é o equivalente a estudar para o vestibular. Tranca-se no quarto, são recusados convites para sair e se divertir, a história pessoal é revisada, sublinhada e decorada à exaustão. Não mais o esporte, não mais as festas, não mais os bares. Os únicos amigos preservados são os travesseiros.
Fala-se pouco, come-se devagar, experimenta-se um emagrecimento involuntário que dá mais certo que uma dieta consciente. Aquela sonhada perda de sete quilos realmente acontece, na hora e no jeito errados. Não festejamos, não percebemos, não alardeamos a forma física; a tristeza encabula o corpo. Somos um par de olheiras e uma boca confusa. As reticências do período tanto podem ser suspiros como gemidos.
A única missão que resta é estudar, não para seguir uma profissão. Estudar para seguir a própria vida. Estudar para se manter em pé ou definitivamente cair. Na dor do amor, o desejo é chegar ao fundo de si, mas o fundo de si está na pessoa que deixou de nos amar. E nunca se chega ao fim. O fim não está mais com a gente. Foi junto com quem traiu a fidelidade em que acreditávamos.
A dor do amor oferece igual preparação de uma prova difícil. Uma prova que não importa a doação, o resultado é conhecido. O que se queria já se perdeu. Um vestibular que significará esforço e não celebração. Um vestibular onde se é desclassificado antes da inscrição.
Não cumprimos a rotina, mal e forçosamente ficamos de pé. Os pijamas pedem na Justiça a guarda da pele. É um luto sem enterro. Um luto sem cadáver. Um luto sem missa de sétimo dia. Um luto sem familiares se aproximando e tentando consolar. Um luto sem pêsames e garantia social. Um luto obrigado a trabalhar no dia seguinte. Um luto que não se explica. Um luto que não merece nem anúncio de jornal para avisar que acabou. Um luto em que o sofredor poderá se encontrar com seu sofrimento em carne e osso na próxima esquina.
Acorda-se com a sensação de pesadelo, dorme-se com a sensação de pesadelo. Fase de transição, em que se confia sinceramente que nada será melhor do que antes. Quem tinha humor fica cínico. Chora-se, no princípio, com força, depois o choro é um hábito, perde a concentração e vira um resmungo intermitente. Não se faz outra coisa senão remoer o tempo, repisar fotografias, vídeos, cartas. Reler e revisar o que foi esquecido no Ensino Fundamental e Médio. São meses de exílio, sacrifício, a mostrar que se é capaz de sofrer a sério por alguém e abdicar do que mais se gostava.
A fossa do amor não é uma encenação. Ao passar por ela, termina a confiança irrestrita, a esperança ingênua. As pessoas que sofreram esse descompasso são reconhecíveis de longe. Não se alegrarão de todo. Uma saudade vai retirar a velocidade dos ouvidos. Não se abrirão de novo como uma vitória-régia. Têm uma sutileza que as diferenciam dos demais, o tolhimento do abandono. E poderão, no futuro, amar melhor porque não estarão mais sozinhas. Estarão sempre conversando e consultando sua dor.
quarta-feira, 20 de abril de 2011
Páscoa, por Verissimo
O melhor cronista do Brasil, eu acho.
Talvez agora empatado com o Carpinejar, eu tenho certeza.
Talvez agora empatado com o Carpinejar, eu tenho certeza.
***
- Papai, o que é Páscoa?
- Ora, Páscoa é ... bem .. é uma festa religiosa!
- Igual Natal?
- É parecido. Só que no Natal comemora-se o nascimento de Jesus, e na Páscoa, se não me engano, comemora-se a sua ressurreição.
- Ressurreição?
- É, ressurreição. Marta, vem cá!
- Sim?
- Explica pra esse garoto o que é ressurreição pra eu poder ler o meu jornal.
- Bom, meu filho, ressurreição é tornar a viver após ter morrido. Foi o que aconteceu com Jesus, três dias depois de ter sido crucificado. Ele ressuscitou e subiu aos céus. Entendeu?
- Mais ou menos .. Mamãe, Jesus era um coelho?
- Que é isso menino? Não me fale uma bobagem dessas! Coelho! Jesus Cristo é o Papai do Céu! Nem parece que esse menino foi batizado! Jorge, esse menino não pode crescer desse jeito, sem ir numa missa pelo menos aos domingos. Até parece que não lhe demos uma educação cristã! Já pensou se ele solta uma besteira dessas na escola? Deus me perdoe!
- Mamãe, mas o Papai do Céu não é Deus?
- É filho, Jesus e Deus são a mesma coisa. Você vai estudar isso no catecismo. É a Trindade. Deus é Pai, Filho e Espírito Santo.
- O Espírito Santo também é Deus?
- É sim.
- E Minas Gerais?
- Sacrilégio!!!
- É por isso que a Ilha da Trindade fica perto do Espírito Santo?
- Não é o Estado do Espírito Santo que compõe a Trindade, meu filho, é o Espírito Santo de Deus. É um negócio meio complicado, nem a mamãe entende direito. Mas quando você for no catecismo a professora explica tudinho!
- Bom, se Jesus não é um coelho, quem é o coelho da Páscoa?
- Eu sei lá! É uma tradição. É igual a Papai Noel, só que ao invés de presente ele traz ovinhos.
- Coelho bota ovo?
- Chega! Deixa eu ir fazer o almoço que eu ganho mais!
- Papai, não era melhor que fosse galinha da Páscoa?
- Era, era melhor, ou então urubu.
- Papai, Jesus nasceu no dia 25 de dezembro, né? Que dia que ele morreu?
- Isso eu sei: na sexta-feira santa.
- Que dia e que mês?
- ??????? Sabe que eu nunca pensei nisso? Eu só aprendi que ele morreu na sexta-feira santa e ressuscitou três dias depois, no sábado de aleluia.
- Um dia depois.
- Não, três dias.
- Então morreu na quarta-feira.
- Não, morreu na sexta-feira santa ....... ou terá sido na quarta-feira de cinzas? Ah, garoto, vê se não me confunde! Morreu na sexta mesmo e ressuscitou no sábado, três dias depois! Como? Pergunte à sua professora de catecismo!
- Papai, por que amarraram um monte de bonecos de pano lá na rua?
- É que hoje é sábado de aleluia, e o pessoal vai fazer a malhação do Judas. Judas foi o apóstolo que traiu Jesus.
- O Judas traiu Jesus no sábado?
- Claro que não! Se ele morreu na sexta!!!
- Então por que eles não malham o Judas no dia certo?
- É, boa pergunta. Filho, atende o telefone pro papai. Se for um tal de Rogério diz que eu saí.
- Alô, quem fala?
- Rogério Coelho Pascoal. Seu pai está?
- Não, foi comprar ovo de Páscoa. Ligue mais tarde, tchau.
- Papai, qual era o sobrenome de Jesus?
- Cristo. Jesus Cristo.
- Só?
- Que eu saiba sim, por quê?
- Não sei não, mas tenho um palpite de que o nome dele era Jesus Cristo Coelho. Só assim esse negócio de coelho da Páscoa faz sentido, não acha?
- Coitada!
- Coitada de quem? - Da sua professora de catecismo!!!
Viajando para acreditar.
Eu acredito no amor, nos edredons bem fofos e em trabalhar de madrugada. Já acreditei mais em café na cama e em paixão que nunca morre. Acredito nos espressos mais fortes, e apenas em doces feitos com chocolate. Acredito na palavra etéreo, nos LPs dos Beatles, nas cartas que a gente nunca manda e nas fotografias.
Eu acredito em filmes tipo A Vida é Bela, acredito nas poesias mais bregas, nos horários mais malucos pra dormir e nos caderninhos coloridos. Acredito no samba, desconfio da bossa nova. É amada demais, mas vive triste por ser abandonada. Sofre de paradoxo.
Eu acredito em bilhetinhos de amor, acredito em carregar sempre cartões de visita na bolsa e desde a semana passada acredito em comida mexicana. Acredito nas casinhas coloridas da Cidade Baixa, que devem ter um corredor enorme. Se alguém chamasse para almoçar, o grito chegaria só na hora do café. E ainda estaria frio. Tá, mas eu não acredito em café frio.
Eu acredito que música vicia, que sempre vai acontecer a coisa certa com a pessoa errada e que nunca dá pra terminar duas coisas nessa vida: borracha e caneta BIC. O resto sempre tem fim.
Eu acredito na vontade de viver dos livros, nas feiras de frutas e verduras dos bairros e nos croissants de qualquer padaria francesa. Acredito que jornal só perde a validade quando a gente lê. Parece que não interessa tanto quando uma coisa aconteceu, ela vira notícia quando a gente fica sabendo.
Eu acredito em ir ao cinema sozinha. Não acredito em reunião demorada, nem em loteria. Super acredito em frases de amor, de efeito, de impacto, ou qualquer coisa dessas que emociona. Ou vai me dizer que você também não adora um pouquinho de motivação em poucos caracteres.
Eu acredito em dormir até o meio-dia no meio da semana e em trabalhar no domingo, acredito que vontade de fazer as coisas não tem data nem horário, e que só é feliz quem pensa exatamente assim como eu. E eu não acredito em quem disser o contrário. E muito menos acredito que sou teimosa, chata ou coisa assim.
Eu acredito que quem mais quer é quem mais foge, e que a gente sempre tem uma ótima desculpa para não fazer o que mais precisa. E agente ainda acha que acredita nisso.
Eu acredito que tem muita coisa pra se acreditar. A gente vai mudando a roupa das ideias. E sempre tem uma coisa nova sentada esperando julgamento: a gente acredita ou não? Uma pessoa, uma nova aula na academia, um novo restaurante, qualquer coisa. Pode ser até aquele vizinho novo que você já acredita - e juraria - que é um lindo.
E aí mora todo encanto da viagem: no sabor de acreditar.
terça-feira, 19 de abril de 2011
fragmentos (2).
(...)
dormindo e esquecendo a tristeza, acordando e repondo a esperança, aqueles que resistem e talvez envelheçam sem completar seus sonhos, que respeitam as pequenas alegrias porque podem ser as únicas, que não decidiram se diminuem a expectativa para sair da solidão ou aumentam as exigências para justificá-la.
Como eu amo quem se importa em amar, apesar de tudo.
Apesar de tudo.
***
leia na íntegra aqui.
sábado, 16 de abril de 2011
a alegria foi encadernada em papel bem chique.
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